o leitor/revisor

Um texto é feito de escritas múltiplas,
oriundas de várias culturas e que entram
umas com as outras em diálogo, em paródia,
em contestação; mas há um lugar onde essa
multiplicidade se reúne, e esse lugar
não é o autor, (...), é o leitor.
(Roland Barthes, A morte do autor, 2004, p.64)

Ao revisar um texto, o leitor nem sempre se posiciona como degustador de uma obra. Da obra que escolheu ler por prazer, curiosidade, estudo, fruição. 
Revisar um texto pode ser árduo tanto para o autor quanto para o leitor/revisor.
Para o autor, pode haver a angústia de ver seu texto modificado. Uma preocupação que no processo de revisão pode se reverter, dependendo da interação que o revisor tem com sua obra. Ao ver seu texto ser trabalhado pelo revisor, tornando-se mais "limpo" e coerente, sem que suas ideias sejam alteradas, a angústia inicial passa a dar espaço à satisfação.
Para o revisor, esse cuidado de preservar a autoria requer uma boa dose de sensibilidade, além de conhecimento do gênero e da norma padrão da língua e seus fatores de coesão e de coerência, por exemplo.

Por que revisar um texto antes de publicá-lo?

Dependendo do meio de circulação de uma obra (literária ou acadêmica), são exigidos determinados padrões, a exemplo do uso da norma culta, que envolve adequação a normas ortográficas e gramaticais.
Mas uma revisão não se restringe a um aspecto estrutural.
Exige, também, atenção ao gênero particular a um contexto, ao estilo que o autor imprime em sua obra.
Se o revisor se detém apenas nos aspectos estruturais de um texto, ele corre o risco de assassinar autorias. E faz, muitas vezes, com que o autor acredite que escreve mal.
É fato que não é raro o revisor se deparar com textos com problemas formais (de coesão, por exemplo) que prejudicam a coerência e, portanto, a obra.
A leitura em parceria, discussão sobre as mudanças sugeridas (e não impostas) e explicitação das escolhas, nesses casos, pode contribuir para que o autor reflita sobre sua escrita. Muitas vezes, uma alteração sugerida pelo revisor é desconsiderada por ambos a partir dessa leitura em parceria, em que há a reflexão sobre os diferentes pontos de vista a fim de chegarem a uma conclusão.
Há autores que dizem "não quero me preocupar com a forma quando escrevo". E a forma, a princípio, é menos importante que o conteúdo. No entanto, às vezes seu mal uso impede que o conteúdo seja desenvolvido com clareza. Assim, quando passam a ler e refletir em parceria sobre as construções, podem observar aspectos formais da língua que contribuem com seu processo de escrita. Em fluxo. Ativo.


No meu trabalho como revisora privilegio o diálogo com o autor, geralmente feito via Skype ou Whatsapp, de modo que ele possa compreender as alterações feitas quando necessário e, assim, repensar aspectos de sua escrita.




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